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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Magnificat


(Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa)

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama²,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?

É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

Magnificat: palavra do latim que significa engrandece ou glorifica; cântico liturgico (também conhecido como Cântico da Virgem ou Canção de Maria), sendo a recitação da passagem de São Lucas da visitação de Maria a Isabel (Lc 1,46-56). Onde Maria exulta a Deus o comprimento de sua vocação de ser Mãe de Jesus: "Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. (...)" (Revelado a ela, cf. 1,26-39). (Magnifcat - Cântico de Maria, interpertado pelo Coral da Basílica de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal).

Josué (Livro de Josué): personagem do AT, escolhido por Deus para liderar os israelitas na conquista da terra prometida, cumprindo assim as promessas feitas a Moisés. Sua história, assim como suas conquista é narrada no livro que leva o seu nome (cf. Js 1,1-9). Nota-se que o livro faz associação de Josué a fatos que lhe eram estranhos ou posteriores a seu tempo, para dar um quadro do conjunto da conquista. (nota d, pág. 327). No presente verso o poeta faz referência a batalha de Gabaon em que Deus teria parado o sol a pedido de Josué: "Sol, detém-te em Gabaon, e tu lua, no vale de Aralon!" E o sol se deteve. "Nunca houve dia semelhante, nem antes, nem depois, quando Iahweh obedeceu à voz de um homem". (cf. Js 10,10-15). Tal verso é expressão poética do auxilio de Iahweh, tomado literalmente pelo redator para salientar a grandeza do herói, e que ele cumpriria a vontade divida, ou seja a sua vocação perante Deus.

Livro: Poemas de Álvaro de Campos

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