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domingo, 28 de outubro de 2012

''Acaso & Afinal''


Vídeo clipe com a junção de trechos de dois poemas de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa). Sendo que um dos poemas se chama "acaso" e abre o vídeo e o outro se chama "afinal".



Segue a transcrição:

Acaso
No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Afinal

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são, em verdade excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

 Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,   
  Quanto mais personalidade eu tiver,   
  Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,   
  Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,   
  Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,   
  Estiver, sentir, viver, for,   
  Mais possuirei a existência total do universo,   
  Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.   
  Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,   
  Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,   
  E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.   
   
  Cada alma é uma escada para Deus,   
  Cada alma é um corredor-Universo para Deus,   
  Cada alma é um rio correndo por margens de Externo   
  Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.   
   
  Sursum corda!  Erguei as almas!  Toda a Matéria é Espírito,   
   
  Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos   
  Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho   
  E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!   
  Sursum corda!  Na noite acordo, o silêncio é grande,   
  As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam   
   
  Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos   
  Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.   
  Sursum corda!  Acordo na noite e sinto-me diverso.   
  Todo o Mundo com a sua forma visível do costume   
  Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,   
   
  Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.   
   
  Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço   
  Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!   
  Mãe verde e florida todos os anos recente,   
  Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,   
  Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis   
  Num rito anterior a todas as significações,   
  Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!   
  Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,   
  Grande voz acordando em cataratas e mares,   
  Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,   
  Em cio de vegetação e florescência rompendo   
  Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso   
  A tua própria vontade transtornadora e eterna!   
  Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,   
  Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,   
  Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,   
  Que perturba as próprias estações e confunde   
  Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!   
   
  Sursum corda!  Reparo para ti e todo eu sou um hino!   
  Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima   
  Volteia serpenteando, ficando como um anel   
  Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,   
  Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.   
  Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente   
  Meu coração a ti aberto!   
  Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,   
  Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,   
  Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,   
   
  Sou um monte confuso de forças cheias de infinito   
  Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,   
  A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une   
  E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim   
  Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,   
  Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira   
  Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,   
  Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.   
   
  Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.   
  Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,   
  No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo   
  Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos   
  Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.   
   
  Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,   
  Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo   
  De chamas explosivas buscando Deus e queimando   
  A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,   
  A minha inteligência limitadora e gelada.   
   
  Sou uma grande máquina movida por grandes correias   
  De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,   
  O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,   
  E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...   
   
  Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito   
  Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,   
  Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,   
  Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço   
  Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.   
   
  Dentro de mim estão presos e atados ao chao   
  Todos os movimentos que compõem o universo,   
  A fúria minuciosa e dos átomos,   
  A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,   
  A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,   
   
  A chuva com pedras atiradas de catapultas   
  De enormes exércitos de anões escondidos no céu.  ¹ 

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia. sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explodem

Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Se com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes ,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

Livro: Poemas de Álvaro de Campos (Ambos os poemas)
¹ Suprimido na gravação

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